E os rascistas somos nós? (parte II)
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MAPUTO
Moçambicanos residentes na RAS: Vitimas da xenofobia aguardam regresso à casa
MAIS de 40 moçambicanos vítimas da violência xenófoba que desde semana passada estão acomodados no bairro de Alexandra, nos arredores de Joanesburgo, celeiro da economia da África do Sul, deverão regressar esta semana à Moçambique, sua terra natal, com muitos deles sem o mínimo para o seu sustento imediato, uma vez que tudo o que eles tinham conseguido reunir ao longo de vários anos neste país vizinho foi destruído ou simplesmente expropriado pelos locais, como forma de forçá-los a abandonar a zona.
Acomodados em tendas organizadas pela Cruz Vermelha da África do Sul instaladas junto da Esquadra da Polícia de Alexandra, aqueles cidadãos estão neste momento a organizar-se no sentido de poderem retornar às origens.
Uma fonte do Consulado-Geral de Moçambique na África do Sul admitiu a possibilidade de o número vir a subir, porque alguns se apresentam ainda relutantes em decidir o seu regresso, por pensarem nos seus bens, expropriados pelos locais.
Aqueles compatriotas disseram que preferem tomar o caminho da casa, em vez de continuarem na África do Sul, onde a sua permanência se tornou uma incerteza de alguns dias a esta parte, dada a vaga de violência xenófoba que durante este último fim-de-semana ganhou novos tentáculos.
José Sibambo disse ter perdido tudo que possuía, quando a sua cabana foi invadida e ocupada pelos residentes de Alexandra.
Contou que quando regressou do serviço viu que a sua geleira, os seus dois televisores, o fogão eléctrico, dinheiro, panelas e cobertores tinham sido expropriados pelos atacantes.
Sibambo, a viver legalmente a 11 anos na África do Sul, revelou ter ficado surpreendido ao encontrar novos ocupantes no interior da sua cabana, já com fechaduras e chaves novas.
Afirmou não ver o dia do regresso a Moçambique, pois a sua permanência tornou-se uma incerteza nas terras do rand.
Além de Alexandra, referir que entre sábado e domingo grupos de sul-africanos lançaram 17 assaltos contra estrangeiros nas áreas de Tokoza, Bogsburg, Vosloorus e Julius Street, a este de Joanesburgo, matando pelo menos cinco moçambicanos.
Não foi revelada a identidade dos moçambicanos mortos nos incidentes. Mas sabe-se, porém, que eles perderam a vida quando grupos de cidadãos sul-africanos desencadeavam uma acção descrita como sendo de ataque a estrangeiros.
No bairro de Vosloorus, mais de 500 sul-africanos tomaram as ruas daquele bairro de lata exigindo aos imigrantes a sua retirada imediata e incondicional da zona.
O mesmo ocorreu em Mpilisweni, uma área localizada perto do “volátil” subúrbio de Tokoza. Naquela zona, os locais destruíram as cabanas dos imigrantes, bem como pilharam as suas barracas.
Numa conversa havida esta manhã com o cônsul-geral de Moçambique naquele país com vista a apurar o que as autoridades estariam a fazer com relação à situação, Luís da Silva, indicou que por a situação ser extremamente preocupante a representação diplomática do nosso país na RAS está a encorajar os seus cidadãos de modo a regressarem ao país.
Da Silva revelou que o consulado tem vindo a acompanhar de perto o desenrolar dos assaltos infringidos contra os imigrantes. Disse que logo que se despoletou o problema, a sensivelmente uma semana, a sua instituição solicitou a Polícia sul-africana no sentido de salvaguardar os interesses dos moçambicanos, mas o pedido foi considerado inoportuno, sob pretexto de insegurança.
O diploma afirmou que o consulado tem realizado contactos através dos dirigentes da comunidade moçambicana de Alexandra, também “acomodados” na esquadra da Polícia local.
O consulado mantém junto da esquadra de Alexandra uma equipa que está a proceder ao registo das vítimas e dos que estão interessados em regressar a Moçambique.
A tensão xenófoba tende a espalhar-se para mais áreas circunvizinhas de Joanesburgo. Aliás, ha já notícias dando conta de assaltos havidos contra imigrantes estrangeiros no subúrbio de Diepsloot, a norte de Joanesburgo.
Uma outra informação aponta para a morte de um outro moçambicano na área de Soweto, bairro com número mais significativo de naturais de Moçambique radicados no país.
Este moçambicano, cujo nome não foi revelado, encontrou a morte quando se deslocava ao seu posto de trabalho.
Em Alexandra, onde residem milhares de moçambicanos, alguns a mais de 30 anos, estes perderam todos os seus haveres, incluindo casas por si construídas ao longo do tempo. Bens como mobílias, geleiras, louças, camas, roupas, cobertores e panelas foram usurpados e outros reduzidos a cinzas.
Os assaltantes proíbem os imigrantes de recuperar seja qual for o seu bem e, as suas casas são imediatamente ocupadas pelos locais. Os mini-“bus” estabelecendo ligação entre Alexandra e a baixa da cidade de Joanesburgo estão interditos de transportar imigrantes.
Instado a precisar o número de moçambicanos a viver em Alexandra, da Silva disse não ser possível avançar dados concretos, acrescentando que aquele bairro acomoda um número considerável dos nossos compatriotas, alguns contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento económico deste país.
Entretanto, a situação no terreno continua muita tensa em todas as áreas sob acção xenófoba.
Os atacantes prometem levar a cabo operações anti-imigrantes até que não haja sinal da presença de estrangeiros naquelas áreas, por alegadamente estarem a semear crime, roubar empregos aos naturais, mulheres e maridos e usarem órgãos humanos para fins de bruxaria para além de possuírem poderes para “produzirem” dinheiro.
Embora haja forte presença da Polícia, o bairro de Alexandra continua a arder. Numerosos residentes confrontam-se dia após dia com os agentes da lei e ordem, por protegerem os imigrantes, na sua maioria moçambicanos e zimbabweanos.
Enquanto aquilo tem lugar, ao mesmo tempo outros grupos de sul-africanos vão queimando “mukhukus” (cabanas, feitas de cartolina, madeira e zinco) e barracas.
Casas melhoradas, como de alvenaria, construídas pelos imigrantes, não são destruídas. São imediatamente ocupadas pelos locais que, depois de as usurparem igualmente se declaram legítimos proprietários dos bens que lá forem encontrados.
Os atacantes não querem saber dos apelos feitos pelas autoridades para a calma. Equipados com catanas, tijolos, chambocos, picaretas, paus, pedras entre outras armas brancas, eles vão-se movendo de uma rua para outra, enquanto gritam palavras de morte contra os “ikwerekwere” ou “maguirigamba” (termo pejorativo para designar estrangeiros).
Em vez de acatarem os apelos para refrearem os ataques, eles exigem a libertação de cerca de 70 pessoas neste momento em poder das autoridades policiais, acusadas de assassinato, tentativa de assassinato, violência pública e roubo desde que a tensão começou no passado domingo.
Há informações que indicam que os atacantes ameaçam atingir nos próximos dias o bairro de Tembisa, uma outra área potencial centro de acomodação de moçambicanos.
Contudo, apesar de a Ministra do Interior sul-africana, Nosiviwe Mapisa-Nqakula, ter prometido que o Governo não vai deportar nenhum imigrante por causa da violência neste momento a fustigar vários bairros à volta de Joanesburgo, 32 ilegais de Moçambique encontram-se neste momento no centro de trânsito de Lindela, aguardando o seu recambiamento.
Esses cidadãos foram assaltados juntamente com dezenas de zimbabweanos por um grupo de sul-africanos na área de Olifantsfontein, perto de Tembisa.
À semelhança das vítimas de Alexandra, os 32 moçambicanos também viram os seus bens a ser expropriados pelos atacantes.
Não foi revelada a data em que vai ocorrer a deportação desses 32 moçambicanos, medida que parece entrar em choque com o pronunciamento feito pela ministra Mapisa-Nqakula, instruindo ao não recambiamento das vítimas da xenofobia no país.
- JORGE DICK, em Joanesburgo
Fonte: http://www.jornalnoticias.co.mz
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